O ensino da arte nas escolas do século XXI

“Não há clareza por parte de muitos professores, diretores e gestores de como se planeja e operacionaliza o currículo na área de arte”, Rosa Iavelberg.

Por Marcus Tavares

Há dois anos (15 de julho de 2010), o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a lei 12.287, substituindo o parágrafo segundo do artigo 26 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). O novo texto ratificava a obrigatoriedade do ensino de arte nas escolas de Educação Básica (Educação Infantil e Ensino Fundamental e Médio), “especialmente em suas expressões regionais”. O objetivo era promover o desenvolvimento cultural de todos os estudantes.

Mas afinal, o que significa esta nova redação? O que é arte na escola? Arte e mídia têm a ver? A revistapontocom entrevistou, por e-mail, a professora Rosa Iavelberg, professora de arte da graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo Iavelberg, uma das autoras dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) na área de artes, “não há clareza por parte de muitos professores, diretores e gestores de como se planeja e operacionaliza o currículo na área de arte. Na prática, com exceção feita, infelizmente há poucas experiências, mas que felizmente ocorrem em número crescente”.

Confira as ideias da professora:

revistapontocom – Qual é o impacto da promulgação da nova lei nas escolas?
Rosa Iavelberg –
Foi feita alteração na lei que aperfeiçoa o ensino de arte obrigatório na Educação Básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Médio). No caso, foi proposta pelo presidente Lula alteração na redação do §2º do artigo 26 das Diretrizes e Bases da Educação Nacional que fala da obrigatoriedade do ensino de arte na Lei 9.394 de 1996. A primeira redação trazia o seguinte texto: O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos. A nova redação, promulgada pela Lei 12.287, ficou assim: O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos. A ênfase nas expressões regionais é muito importante para que se recuperem as culturas locais como conteúdos a serem sistematizados e aprendidos nas escolas. Mas não é necessário restringir-se às produções regionais no desenho curricular, pode-se associar seu ensino ao dos conteúdos universais, por exemplo: ensinar sobre a arte de diferentes povos, culturas, tempos e lugares.

revistapontocom – Há professores suficientes para esta nova realidade?
Rosa Iavelberg –
Não há professores suficientes para o ensino de arte, assim como acontece com outras disciplinas, entretanto, deve-se promover a formação para dar conta das demandas por uma educação de qualidade.

revistapontocom – Mas, afinal, o que é, na prática, o ensino da arte na escola? O que se pretende alcançar com ele? As escolas têm conhecimento disso?
Rosa Iavelberg
– Não há clareza por parte de muitos professores, diretores e gestores de como se planeja e operacionaliza o currículo na área de arte. Na prática, com exceção feita, infelizmente há poucas experiências, mas que felizmente ocorrem em número crescente. Ainda se nota problemas recorrentes. Entre outros, podemos citar: a ausência de práticas de criação nas escolas em diferentes linguagens da arte: teatro, música, dança ou artes visuais, cada qual tratada disciplinarmente em sua especificidade; a arte a serviço de projetos de meio ambiente, saúde, datas comemorativas do calendário escolar e à aprendizagem de outras disciplinas sem ênfase em seus conteúdos próprios; a desvalorização da área denotada pela ausência de proposta de aquisição de livros pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD); a ausência de avaliação dos projetos desenvolvidos nas escolas como situações de aprendizagem; e a pouca visita cultural e estudo de arte brasileira ou de artistas regionais.

Saiba mais

revistapontocom – Vivemos num mundo digital, tecnológico e midiático. Isto tem algum impacto sobre o ensino da arte na escola?
Rosa Iavelberg
– As tecnologias contemporâneas devem ser estudadas e usadas em sala de aula, assim como a arte contemporânea não pode ser suprimida do desenho curricular, pois isto significa privar o aluno de participar do seu tempo. Podemos dizer que a arte das crianças e jovens, dos dias de hoje, pode usar dos meios tradicionais e também dos novos meios, por ser parte do mundo em que vivem.

revistapontocom – Como atrair crianças e jovens para o ensino tradicional da arte quando a mídia e a possibilidade de produzi-la está ao alcance de crianças e jovens?
Rosa Iavelberg
– A criança e o jovem não deixam de se interessar por desenho, pintura, modelagem, jogo dramático, teatro se estas modalidades forem bem orientadas na escola. Além disso, elas podem se interessar por produzir arte com/a partir da inclusão das novas mídias, tanto na criação como na fruição.

revistapontocom – Podemos dizer que o ensino de arte assume, neste início do século XXI, outro lugar, outra responsabilidade?
Rosa Iavelberg
– Sim. Pode-se compreender como valor a atenção dada ao estudo das produções regionais na Educação Básica, por intermédio da modificação na redação do §2 do artigo 26 da LDB 9394/96. Sabe-se que a lei por si não forma o professor, mas pode fazer a diferença na construção deste caminho e somar-se aos muitos esforços feitos pela melhoria da educação. Quando observamos avanços na lei esperamos práticas que os efetivem. É preciso não atribuir ineficácia ou o fracasso da lei à ausência de professores formados para colocá-la em prática nas escolas. O vão entre lei e ensino, teoria e prática, requer formação de professores, mas também melhoria no reconhecimento da profissão e diminuição nas resistências infundadas e mal justificadas sobre as inovações políticas (a alteração do §2) e as novas didáticas do século XX e XXI – orientação construtivista no ensino e no ensino da arte.

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