Educação em tempos de paz

“As crianças das comunidades não são só invisíveis aos olhos da sociedade. Elas também sentem que não pertencem ao resto da cidade”,  destaca Maria Luisa Barros.

Por Marcus Tavares

A jornalista do jornal O DIA, Maria Luisa Barros, acompanhou no primeiro semestre deste ano, durante três meses, a realidade de crianças de dez escolas da rede municipal do Rio localizadas em comunidades carentes e que, desde dezembro de 2009, passaram a contar com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Foram três meses de entrevistas. Na rota da investigação, as favelas: Dona Marta, Chapéu Mangueira/Babilônia, Pavão-Pavãozinho/ Cantagalo, Tabajaras/Cabritos, Cidade de Deus, Jardim Bata, Borel e Providência. A série intitulada Educação em Tempos de Paz foi publicada pelo jornal em julho deste ano.

Em meio à invasão do Complexo do Alemão e da Vila Cruzeiro, a revistapontocom conversou na semana passada com a jornalista. Objetivo: entender o que sentem as crianças vítimas da realidade do tráfico e conhecer de que forma elas passaram a viver depois da entrada das UPPs. Afinal, o que significam as palavras segurança e paz para essas meninas e meninos? Quais são as perspectivas de vida?

Acompanhe:

revistapontocom – O que significa a palavra segurança para as crianças/alunos que você entrevistou?
Maria Luisa Barros –
Durante alguns meses, acompanhei de perto a rotina de crianças e adolescentes de dez escolas da rede municipal situadas em favelas do Rio de Janeiro, onde foram instaladas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Nessa série especial, intitulada “Educação em Tempos de Paz”, publicada pelo jornal O DIA, procuramos dar mais atenção às crianças do que propriamente aos professores. Queríamos ouvir delas o que havia mudado após a pacificação. O que eu percebi é que, para todas elas, segurança era uma palavra restrita ao dicionário. Elas aprendiam lições de sobrevivência. Sabiam de cor com quem podiam falar, quem podiam cumprimentar, onde se esconder durante um tiroteio e, principalmente, a nunca ultrapassar os limites impostos pelo tráfico. Em favelas como o Batan, Providência, Cidade de Deus e Borel, a única presença do estado se dava através de incursões policiais e do enfrentamento com os bandidos. Isso agora mudou.

revistapontocom – E o que significava a palavra paz?
Maria Luisa Barros –
Talvez eles não tenham ainda a dimensão da paz que estão experimentando pela primeira vez. São gerações de jovens que conviveram a vida toda com a violência sem trégua de uma guerra particular. Mas o que mais me impressionou foi perceber que a paz para essas crianças é poder fazer coisas muito simples do dia a dia que nossos filhos sempre puderam fazer, como dormir uma noite inteira, visitar parentes, não ser interrompido por tiros enquanto fazem o dever de casa e ter o direito de frequentar qualquer escola. Uma das crianças do Borel, na Tijuca, comentou, feliz, que agora já podia estudar na casa do amigo e fazer um lanche. Antes, elas ficavam trancadas em casa com medo dos criminosos armados de fuzis nas vielas da favela. No Batan, em Realengo, encontrei jovens que não podiam se matricular numa escola porque moravam na favela vizinha dominada por facção rival. Um desses alunos, portador de deficiência mental, chegou a apanhar dos traficantes porque não obedeceu à ordem. Hoje ele voltou a estudar na mesma escola e faz aulas de hip hop.

revistapontocom – Era uma realidade portanto muito triste…
Maria Luisa Barros –
Elas viviam num estado de terror permanente. Os professores precisavam disputar a atenção dos estudantes com explosões de granadas, rajadas de fuzis e corpos a caminho da escola. Diante desse cenário, não conseguiam se concentrar nas aulas. Eram crianças agressivas, ansiosas e com baixo desempenho escolar. Não tinham professor porque muitos tinham medo de dar aulas nessas comunidades e passavam semanas sem ir à aula durante os confrontos. Uma aluna de uma escola no Morro da Providência, no Centro do Rio, me disse que só conseguia ler rápido os textos, sem entender, sempre achando que um tiroteio iria começar a qualquer momento. Hoje ela já consegue ler com calma. Isso passa a fazer toda a diferença. No Morro do Cantagalo, em Ipanema, a diretora de um Ciep ficou surpresa com a primeira eleição para o Grêmio escolar, após a UPP. Quarenta e cinco crianças disputaram a campanha. Nos outros anos, era preciso convocar para que participassem. Antes da pacificação, o poder era do aluno “amigo” de traficante. Agora o status é ser líder do grêmio.

revistapontocom – A marca do tráfico era mais do que visível no dia a dia das crianças…
Maria Luisa Barros –
Eu convivi com crianças de favelas pacificadas e de comunidades ainda muito violentas. A principal diferença entre elas é o sorriso. Jovens de áreas onde o tráfico domina têm um semblante tenso, são de poucas palavras e têm medo de morrer. Já os outros são muito mais sorridentes e carinhosos, como se tivessem tirado um peso enorme dos ombros. Durante a reportagem, pedimos que os alunos fizessem desenhos, redações, além disso analisamos trabalhos antigos que os professores nos deram. O resultado foi impressionante. Antes da UPP, crianças que não eram nem alfabetizadas já conheciam pequenas palavras, como as dos modelos dos fuzis AR-15, FAL, AK-47, e das siglas das facções CV, ADA e TC. Nos textos, as crianças se queixavam de que havia muita moto na favela que quase as atropelavam. Não havia como ser diferente. Os traficantes eram a única referência do lugar. Os desenhos que antes eram sombrios, retratando uma realidade em branco e preto, com imagens de bandidos, caveirões e traficantes se tornaram mais coloridos, alegres e harmoniosos, com cenas da família, da escola, mas principalmente, dos policiais do Bope e da UPP, vistos como heróis.

revistapontocom – Agora, são outras crianças?
Maria Luisa Barros –
A pacificação é recente, mas já mudou a rotina de mais de 50 mil estudantes cariocas. Das 10 escolas municipais nas áreas com UPP, oito já atingiram e até ultrapassaram as metas do Ministério da Educação para 2017 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), principal avaliação da qualidade de ensino no Brasil. Em algumas, a frequência dobrou e faltam salas para tantos alunos. O noturno que praticamente não tinha aulas por causa da violência teve recorde de matrículas. Voluntários do “asfalto” também retornaram às salas de aula. Apesar das conquistas, muitos ainda vão demorar a esquecer os traumas de infância. Quase todos conviveram com alunos que obtiveram certidão de óbito antes do diploma. Numa pesquisa feita com eles, 71% disseram que sofreram algum tipo de violência física ou psicológica. Neurocientistas, no entanto, garantem que nunca é tarde para apagar os traumas da mente. No momento em que a criança passa a ser tratada com respeito e carinho, ela quebra o círculo vicioso de violência e agressividade e cria um novo círculo virtuoso de gentilezas e respeito pelo outro.

revistapontocom – As crianças que você entrevistou devem saber exatamente o que estão sentindo as crianças da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão?
Maria Luisa Barros –
Com certeza. Elas já passaram por tudo aquilo. Com a pacificação prometida para o ano que vem, 11 mil crianças e jovens da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão terão a oportunidade de passar uma borracha e começar a reescrever o futuro. Nas comunidades pacificadas, as UPPs inverteram a ordem das aspirações profissionais entre crianças e jovens. Carreiras militares e das áreas de Saúde e Justiça, que exigem anos de estudo e disciplina, foram apontadas pelas crianças como as preferidas num questionário aplicado pelo O DIA. Profissões ligadas a esporte, como jogador de futebol, aparecem só em terceiro lugar. Sinal de novos tempos, para aqueles que antes apostavam no futebol como um lance de sorte para conseguir sair da favela. Muitos se espelham nos policiais da UPP para seguir carreira e melhorar a vida da família. É um novo começo.

revistapontocom – Você acha que essas crianças dessas comunidades são, muitas vezes, invisíveis para a sociedade?
Maria Luisa Barros –
Não só são invisíveis aos olhos da sociedade, como elas mesmas sentem que não pertencem ao resto da cidade. Ouvi relatos de crianças que moram em favelas próximas à Barra da Tijuca, mas não tem costume de ir à praia e não frequentam shoppings do bairro. Elas têm dificuldade de ultrapassar essas barreiras sociais como se houvesse uma porta de vidro impedindo essa passagem. Com a UPP, empresas, ONGs e voluntários estão entrando pela primeira vez nessas comunidades. Mas, além desse trabalho, é preciso que elas sejam chamadas a sair de lá, visitar museus, ir a cinemas, ou seja, conhecer outras realidades além da favela e poder sonhar com novos horizontes.

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