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Mídia e teatro infantil

“As produções infantis não têm nada de amador. Pelo contrário. É um mercado muito sério, até mesmo porque as crianças são muito espontâneas e sinceras”, destaca a atriz Luana Piovani.

Por Alexandre Schnabl,
Estudante de jornalismo da UniverCidade

Símbolo sexual desde que estreou na televisão, no início dos anos 1990, e conhecida pelo seu temperamento polêmico, a atriz Luana Piovani anda na contramão do mercado. Enquanto seus colegas de profissão se estabelecem nas novelas da TV Globo ou da Record, ela prefere se dedicar às produções de cinema e, sim, do teatro infantil, relegando à televisão um papel secundário.

Ela destaca que a decisão não é fácil, mas não abre mão de ficar longe de estereótipos e de rótulos que acabam sendo impostos. Diz que é uma questão de escolha. No teatro infantil, encontrou um grande mercado. Mercado sério, inteligente e, acima de tudo, árduo. Na bagagem, três grandes sucessos: O pequeno príncipe; Alice no país das maravilhas e O soldadinho e a bailarina.

Acompanhe a entrevista:

Como você faz para se manter em evidência há tanto tempo, mesmo não participando de novelas?
Luana Piovani – Acredito que a forma como estabelecemos nossa carreira é vital e, para isso, é preciso ter uma personalidade sólida e consciência do sistema. O Brasil copia o modelo de entretenimento que foi criado pelos estúdios cinematográficos americanos das décadas de 30, 40 e 50. Pertencer à Globo ou à Record é o mesmo que ter sido contratado pela MGM, Fox, ou Paramount daquela época. A diferença é que temos menos opções de trabalho e ganhamos pouco em comparação com os atores estrangeiros.

Os atores brasileiros que atuam na televisão ganham pouco?
Luana Piovani – Alguns ganham muito bem, outros nem tanto, mas se levarmos em conta o retorno de imagem que dão às emissoras em que trabalham, é pouco. Basta ver que qualquer ator dos EUA com carreira sólida ganha, talvez, US$ 1 milhão por um episódio de seriado. As coisas lá são assim mesmo e o mercado sabe valorizar os profissionais à medida que suga tudo deles ao extremo. Mas para os padrões nacionais, admito que a televisão brasileira paga muito bem. É quase impossível ganhar a mesma quantia no teatro.

Se a televisão paga tão bem por aqui, por que você atua tão pouco nesse meio? Seu último trabalho foi na série Mulher invisível, uma ideia que surgiu de um longa-metragem.
Luana Piovani – Comecei há quase vinte anos, em 1993, na minissérie Sex Appeal, que está reprisando atualmente no canal Viva. Éramos muito jovens, todas nós: eu, Camila Pitanga, Daniele Winits, Carolina Dieckmann. Para uma garota que gosta de atuar e sonha com a fama, o apelo de mídia fácil proporcionado pela exposição na televisão brasileira é um sonho. Mas a gente fica fazendo sempre o mesmo papel. Com o tempo, as propostas de trabalho deixam de ser instigantes, com raras exceções. Preferi abrir o meu leque de opções, mesmo entendendo que a falta de um contrato duradouro na televisão não seria a coisa mais rentável. Foi uma escolha. Não fazia mais sentido seguir uma carreira linear na Globo, sem desafios que me instigassem. Da mesma forma que o cinema americano, a televisão brasileira estereotipa o ator pelo tipo de papel que fez sucesso.  A Joan Crawford fez a vida inteira o papel de mulheres densas e fortes na MGM e depois como free lancer dos estúdios, assim como sua equivalente na Warner, a Bette Davis. A Doris Day sempre foi uma espécie de namoradinha da América na Universal, assim como a Regina Duarte na Globo de antigamente e a Débora Falabella hoje em dia. Mas poucos têm o poder de dizer não aos estúdios – e às emissoras – como a Bette Davis. Uma Maria Fernanda Candido, por exemplo, sempre será uma recriação de uma Suzana Vieira ou de uma Ana Rosa, dos anos 1970, que são reinvenções nacionais das morenas voluptuosas do pós-guerra, como Sophia Loren e Gina Lollobrigida. A Carol Dieckamnn e a Flávia Alessandra sempre são escaladas pra papéis de louras frias e más ou de mocinhas de alto teor ingênuo, porque isso combina com o biótipo da loura doce nórdica. Possivelmente, elas podem ir muito além desses papéis. Preferi dar vazão ao potencial de possibilidades que não encontrava mais na mídia eletrônica.

Foi assim que o cinema entrou na sua vida?
Luana Piovani – Sim. Tive a sorte de entender como funciona a engrenagem da sétima arte e de ter surgido quase com a retomada do cinema brasileiro. Os convites foram surgindo, os diretores de cinema gostaram do meu trabalho e foi vindo um filme atrás do outro.  Pude criar personagens tão diferentes como em O Homem que Copiava, A Mulher Invisível e em seriados de televisão, cuja estrutura é mais enxuta e a produção toma menos tempo. O Quinto dos Infernos, por exemplo, poderia ser adaptado para um filme.

E nesse meio tempo você também se aproximou do teatro infantil. 
Luana Piovani – As produções infantis não têm nada de amador. Pelo contrário. É um mercado muito sério, até mesmo porque as crianças são muito espontâneas e sinceras. Se gostam, gostam mesmo. E descobri que o potencial desse mercado merece ser levado a sério e que o público reage bem se percebe que está sendo tratado com a sinceridade e respeito. Uma produção de teatro infantil leva um tempo enorme e gasta uma fábula se tiver de ser realizada como tem de ser. Até porque uma peça infantil lida com o imaginário de uma faixa etária, faixa etária que não tem limites. Mas o retorno é enorme.

Que retorno é esse?
Luana Piovani – Retorno do ponto de vista da satisfação pessoal e da possibilidade de desenvolver papéis tão diferentes como citei no início. Alice no país das maravilhas, O pequeno príncipe e O soldadinho e a bailarina são completamente diferentes entre si e me renderam protagonistas ricos e totalmente diversos. Dificilmente teria essa oportunidade na televisão comercial. Esse é o principal retorno, a alegria de poder criar aliada à boa resposta de público e crítica.

E o retorno financeiro?
Luana Piovani – Teatro não dá dinheiro no Brasil, aqui não é a Broadway. Mas deu para pagar as contas. Claro que tive que recusar os convites de viajar com as peças para alguns lugares porque a estrutura de produção era enorme. Superprodução mesmo. E nem sempre algumas cidades têm condições de absorver o custo de uma peça como as que eu faço.

Como você consegue se manter na mídia, não fazendo mais novela e atuando em teatro infantil?
Luana Piovani – Acho que dei sorte, os veículos se interessam por mim. Se realmente gostam de mim ou não, eu não sei. Mas tudo que faço é genuíno, espontâneo e com garra. Isso ajuda. Nunca entrei em um projeto por dinheiro, mas pelo estímulo que ele me causava. Talvez a imprensa perceba toda essa coisa e me considere interessante por isso mesmo. Não é fácil ser atriz. Não podemos nos esquecer que a maioria das revistas que estão nas bancas, como Maria Claire, Estilo, Vogue e Quem, pertence aos conglomerados de comunicação, que são donos das emissoras de televisão. Se eu não faço novela e não estou no elenco das emissoras, como vão me chamar para posar para capa dessas revistas?

Mas a beleza não ajuda?
Luana Piovani – Claro que ajuda. Tanto que, apesar de tudo, me chamam para posar para algumas capas de revista. Mas beleza não sustenta uma carreira o tempo todo. Ela acaba e o talento continua.

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