“Professores e alunos devem ficar mais tempo na escola”

Mariléa da Cruz, ex-secretária municipal de Educação, analisa a política pública educacional do Rio.

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom.Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere a entrevista com a ex-secretária municipal de Educação do Rio, Mariléa da Cuz.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.

Por Marcus Tavares

“Questões políticas à parte, há duas coisas que defendo. Primeiro: não é só o aluno que deve ficar mais tempo na escola. O professor também, não dando aula, mas se atualizando, pesquisando e dialogando com outros profissionais. E segundo: acho que a escola precisa contar com uma equipe interdisciplinar composta por psicólogo, assistente social e advogado, para dar conta da complexidade da educação diante dos conflitos familiares que são cada vez maiores e que refletem no ambiente escolar”. A afirmação é da professora e ex-secretária municipal de Educação do Rio, Mariléa da Cruz, que ocupou o cargo entre 1989 e 1992.

Em entrevista à revistapontocom, em sua casa, Mariléa defende o horário integral como uma estratégia para a resolução de vários desafios educacionais, mas para que o projeto dê certo é preciso que o governo promova ações dentro e fora da escola para garantir a qualidade. “Do contrário, é melhor a escola sem horário integral, mas com uma excelente qualidade de ensino”, destaca a professora que está, hoje, à frente da ONG Cidadaniarte

Acompanhe:

revistapontocom – Há 20 anos, a senhora terminava o seu mandato à frente da secretaria municipal de Educação do Rio. O que mudou na escola de lá para cá?
Mariléa da Cruz – O processo educacional é uma questão bem complexa e que envolve a resolução de uma infinidade de problemas que se entrelaçam, sendo que alguns de muita dificuldade para encontrar alguma solução. No dia a dia da política pública educacional, você tem problemas relativos à cultura política, à estrutura administrativa, aos recursos públicos, à rapidez com que as coisas acontecem e ao descompasso entre a realidade da escola conservadora e o avanço científico-tecnológico. Soma-se a isto a relação família e escola, hoje mais agravada e complexa. A escola deixou de ser a instituição da sabedoria, da informação. A informação está ao alcance de todos, independentemente da escola. O desafio de hoje não é informar, mas como fazer com que os estudantes assimilem, analisem e utilizem a informação de forma adequada. Por sua vez, a família, diferente de antigamente, não tem mais tempo para seus filhos. Nesta simbiose – família e escola – há ainda a realidade socioeconômica da cidade que interfere no dia a dia da escola, dos professores, funcionários e alunos. Por conta dessas questões e seus desdobramentos, o desafio da escola de hoje é muito maior. Digo que nos dias de hoje, torna-se mais difícil encontrar solução para os grandes desafios escolares que se agravaram e os novos que surgiram.

revistapontocom – Que desafios escolares seriam estes?
Mariléa da Cruz – Por exemplo, a formação do professor. Nem as universidades nem as escolas normais conseguiram encontrar um novo caminho para qualificar o trabalho do docente. Há ainda o velho ranço dos baixos salários e das condições de trabalho dos professores, questões que passam pela postura política dos governantes. Educação não dá visibilidade política, pois se trata de um processo longo. Quando, de fato, um prefeito chega a ser avaliado pela sua gestão educacional, muitas vezes ele já faleceu. Quando ele está no poder, muitas vezes lança um projeto sem necessariamente analisar todas as circunstâncias em que a proposta se dará. Lança um projeto apenas para ter visibilidade, não garante, portanto, a sua continuidade. Educação não é prioridade. Isto é fato e a história está aí para confirmar. Questões políticas à parte, há duas coisas que defendo. Primeiro: não é só o aluno que deve ficar mais tempo na escola. O professor também, não dando aula, mas se atualizando, pesquisando e dialogando com outros profissionais. E segundo: acho que a escola precisa contar com uma equipe interdisciplinar composta por psicólogo, assistente social e advogado, para dar conta da complexidade da educação diante dos conflitos familiares que são cada vez maiores e que refletem no ambiente escolar. A ampliação da permanência das crianças e dos jovens na escola, ou seja, o horário integral, também é uma bandeira. O horário integral remete à proposta do Darcy Ribeiro e de Leonel Brizola. Foi, sem dúvida, uma proposta arrojada. O que aprendemos: não basta oferecer horário integral na escola, é preciso que o governo promova ações dentro e fora da escola para garantir a qualidade deste horário integral. Do contrário, é melhor a escola sem horário integral, mas com uma excelente qualidade de ensino.

revistapontocom – E em relação à política pública municipal de Educação do Rio? Avançamos?
Mariléa da Cruz – Não vou dizer que conheço profundamente o que tem acontecido hoje no âmbito da secretaria municipal de educação do Rio. Primeiro por defasagem do tempo. E segundo porque comecei a me dedicar a outras atividades, relacionadas à educação, mas não ligadas à política pública. E, evidentemente, o fato de já ter sido secretária cria algumas dificuldades, até para se aproximar e entender o que está acontecendo. Não vou dizer que está pior ou melhor. Acho que todas as secretárias que por lá passaram tiveram a intenção de fazer funcionar o sistema, de melhorá-lo. Todas tiveram suas realizações e deficiências, como também tive. Acho que do ponto de vista de estabelecer uma relação entre cultura e educação avançamos. Posso dizer com certo orgulho que começamos isso, quando iniciamos a realização de concursos (cartazes), festival de pipas, criação de corais, do centro de memória da educação. Avançamos também à medida que temos, hoje, quase a universalidade no atendimento no Ensino Fundamental. Aponto ainda, como positivo: o trabalho junto aos estudantes com dificuldade de aprendizagem e a tentativa de aumentar a participação da comunidade na escola, com o fortalecimento do Conselho Escola Comunidade, que hoje não tem o mesmo peso de antes, mas tem uma função estratégica. Mas, de fato, não avançamos em questões históricas, como o salário dos professores e volto a falar: as condições de trabalho. Outros problemas se agravaram, como a questão da violência na cidade e dentro da escola. E, pelo que sei, existe hoje entre os professores uma insatisfação generalizada com relação às estatísticas escolares. Houve um momento em que os docentes não estavam satisfeitos com a aprovação automática. Hoje, parece que esta insatisfação é maior, pois, ao acabar com a aprovação automática, o atual prefeito foca em estatísticas e avaliações para mostrar que o nível das escolas está melhor. Para isso, chega à escola uma série de projetos que tem o objetivo de alcançar metas, não permitindo que as escolas desenvolvam, com mais liberdade, seu próprio projeto político pedagógico, mais voltado à sua realidade. Na minha época, lançávamos projetos, mas as escolas desenvolviam os que mais tinham a ver com o seu cotidiano e entorno.

revistapontocom – Como a senhora avalia a participação da sociedade neste debate?
Mariléa da Cruz – Acho que a população se interessa pouco pela educação. Houve um momento durante o Governo Brizola de certa mobilização. Percebo que as famílias não dão à educação, a importância que ela merece. Muitas vezes os pais mandam seus filhos para a escola por causa do Bolsa Família ou porque simplesmente têm de trabalhar. A Educação como está, não é algo que representa o futuro, que possibilita a transformação. Há um sentimento de derrota instaurado. Existem pais que não acreditam nos seus filhos, na capacidade deles. Se eles não aprendem, a culpa não é da escola, é deles.

revistapontocom – Neste sentido, fica difícil a sociedade avaliar os candidatos, principalmente em relação à plataforma educacional?
Mariléa da Cruz – Certamente. Acho que para avaliar, a sociedade precisa, primeiro, acreditar nos candidatos. Hoje, com tantos escândalos e problemas, a população já se habituou a escutar promessas com a perspectiva de que não serão cumpridas. Há um descrédito muito, muito grande. A grande preocupação da sociedade, nos dias de hoje, é a saúde. A população poderia, sim, pressionar os governos para que a educação se tornasse prioridade, mas para isso ela precisaria estar dentro da escola, vivenciando as relações, o cotidiano. Se a sociedade não pressiona, o governo não valoriza, não dá a devida prioridade e visibilidade que a Educação merece. Com isso, a Educação é tocada do jeito que dá, de acordo com a vontade política do secretário. Um secretário de Educação, por mais que tenha a melhor ideia, depende do governo, seja municipal, estadual ou federal.

revistapontocom – Qual deve ser o perfil do(a) secretário(a) municipal de Educação do Rio?
Mariléa da Cruz – Acho que ele não precisa ser um educador. Ele tem que ter a qualidade de perceber quais são os problemas e se cercar de profissionais competentes. Que ele assuma não por vaidade profissional, mas porque quer contribuir com a educação de qualidade. Seu principal desafio será convencer toda a equipe governamental da importância da educação.

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