A escola pelo olhar do professor

“Suspeito que a escola venha apontando caminhos progressistas a partir de uma visão ainda tradicional e tecnológica”, Cláudia Reis dos Santos

claudia

Por Marcus Tavares

Cláudia Reis dos Santos é uma típica professora brasileira. Com o curso normal, ingressou na rede municipal de educação do Rio de Janeiro no final da década de 80. Como professora das séries iniciais, foi acumulando experiências, casos e observando o quanto era importante aprender mais, se aperfeiçoar na profissão.

Em 2006, terminou sua graduação em Pedagogia, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). E, em seguida, sem titubear, ingressou no curso de Mestrado em Educação, da mesma instituição.

Cláudia acabou de defender sua dissertação. O tema? Nem um pouco fácil: Afinal, pra que serve a escola? Reflexões acerca da função social da escola do século XXI na cidade do Rio de Janeiro, no qual faz uma avaliação histórica do papel escolar ao longo dos séculos.

Para celebrar o Dia do Professor, a revistapontocom entrevistou Cláudia sobre o papel da escola neste início do século. Trata-se de uma homenagem a todos os professores que acreditam e apostam na educação.

Acompanhe as ideias da Mestre Cláudia Reis dos Santos:

revistapontocom – Qual é a função social da escola?
Cláudia Reis dos Santos
– Resumidamente, podemos refletir que, por muito tempo, a função social da escola esteve em consonância com a necessidade lógica do mercado. Ao longo dos anos, a escola foi uma grande subsidiária da manutenção de uma dada ordem econômica vigente. Sua linha de atuação apresentava um caráter exógeno claro. Metodologias, estruturas e filosofias aplicadas na escola pareciam estar sempre voltadas para algo fora delas. Entretanto, não podemos considerar que a relação da escola com o capital se manteve de acordo com os mesmo protocolos a partir do que chamamos de modernidade. Há de se admitir que essa relação mudou e que ela vem acontecendo em um palco de tensões extremamente dinâmico: o currículo escolar, que nada mais é do que o chão da escola. Apesar dessa dinâmica constante, o cerne dos objetivos da instituição escolar, o que poderíamos chamar de “seu núcleo duro”, ainda parece estar atrás de seus muros, lá fora, na sociedade. É evidente que essa escola e os atores que nela transitam são parte integrante dessa mesma sociedade. Entretanto, muitos de seus anseios e desejos são silenciados. Quando nos propomos a compreender todas as facetas de um currículo, considerando-o como um currículo dinamizado, não podemos esquecer que muito do que não se dinamiza no cotidiano escolar precisa ser visto e interpretado como uma perda relevante na formação dos sujeitos.

revistapontocom – O quadro atual ainda é este?
Cláudia Reis dos Santos –
Suspeito que a escola venha apontando caminhos progressistas a partir de uma visão ainda tradicional e tecnológica. Professores, coordenadores pedagógicos, diretores, supervisores, enfim toda equipe pedagógica de uma escola, têm em mente, em geral em seu Projeto Político Pedagógico, um claro objetivo de formar cidadãos críticos e transformadores. Mas, ao mesmo tempo, são estes profissionais que impedem, por exemplo, o acesso dos alunos aos laboratórios de informática – reconhecidamente hoje como um grande instrumento de acesso ao conhecimento. Essa relação dicotômica entre a teoria e a prática gera poucos frutos na transformação do fazer pedagógico. A escola é um espaço privilegiado para estimular os processos de transformação social. Afinal é lá que mudamos comportamentos por meio da aprendizagem. Embora a escola esteja mergulhada em uma dada cultura e se inter relacione com ela, a instituição não precisa necessariamente se encarcerar em suas possibilidades. Criar uma escola totalmente autônoma da sociedade seria construir um modelo esquizofrênico. Porém, limitar essa construção aos limites impostos pela sociedade, que já está estruturada, seria reduzir substancialmente o seu papel.

revistapontocom – Qual seria o caminho?
Cláudia Reis dos Santos
– Desafiar a escola e seus atores a pensar de modo diferente as relações socioeconômicas que são dadas parece um caminho, embora ousado, bastante promissor para o emergente século XXI. Uma vez que o sistema capitalista enfrenta uma grave crise estrutural, entendo que esse momento pode favorecer o desenvolvimento de uma nova organização institucional da escola. Sendo assim, acredito que a função social da escola, de hoje, embora seja clara para os grupos hegemônicos, traz em si, dialeticamente, os pressupostos para sua transformação, cabendo aos atores sociais envolvidos o despertar para essa possibilidade.

revistapontocom – Soma-se a este cenário a mídia, não?
Cláudia Reis dos Santos
– Sem dúvida. Há 30, 40 anos, a escola guardava a função de “templo do saber”, onde o sujeito para se integrar ao conhecimento era impelido à escola. Hoje, diante da diversidade de oportunidades que a mídia em geral oferece, a escola perde essa hegemonia e, muitas vezes, recebe questionamentos sobre o que veicula como saber absoluto. Essa dinâmica ventila as relações entre alunos, família e escola, criando uma possibilidade maior de avanço do conhecimento. Entretanto, a construção desses saberes necessita de uma mediação consciente, uma vez que a administração do que é veiculado na mídia não possibilita um controle da veracidade das informações, assim como do aspecto ético que as circunda. Mídia e Educação são categorias complementares na constituição do conhecimento hoje. Arrisco a dizer que ainda não compreendemos a dimensão total que essa relação atinge. A escola pública absorve uma responsabilidade especial na formação dos cidadãos e cabe a ela oferecer, estimular e estreitar essa relação. Entendo que as políticas públicas voltadas para a educação não devem desconsiderar esse contexto da mídia e da educação. E precisam pautar o planejamento de curto, médio e longo prazo com o viés do acesso crítico à informatização e à utilização de seus instrumentos. A escola pública tem hoje um papel preponderante na democratização do conhecimento historicamente adquirido, uma vez que universalizou seu acesso. Nesse ponto, há uma convergência com a mídia atual, que, em suas diversas manifestações, difunde informações e possibilita acesso a diversas formas de conhecimento.

revistapontocom – Neste sentido, qual é a função do professor?
Cláudia Reis dos Santos
– Como a escola não é mais a detentora exclusiva do saber, o papel privilegiadíssimo de seus professores na guarda e transmissão do conhecimento também se desgasta. Ao se deparar em sala de aula com alunos que manipulam as tecnologias com enorme desenvoltura, alguns professores chegam a questionar a validade de sua posição social. Mas é justamente nesse momento de abundância de informações não sistematizadas que o professor se torna primordial. Saber selecionar, criticar, reordenar e utilizar as informações disponíveis é fundamental nos dias de hoje e esse conhecimento se dá nas relações de aprendizagem mediada. Relações que se estabelecem primordialmente no âmbito escolar. Sendo assim, o professor do emergente século XXI, além de se atualizar constantemente, sobretudo nas diversas linguagens, tem a função desafiadora de auxiliar na instrumentalização de seus alunos, visando a subsidiar a construção do conhecimento, além de desenvolver seus aspectos formativos.

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