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Novo na moto

Por Ana Miranda
Romancista e atriz
Artigo originalmente publicado no jornal O POVO

Lá ia eu pela estradinha de Icapuí, eram umas seis e meia da manhã, o Sol espalhava sobre a paisagem uma luz quase prata de tão pura: um renque de sabiás, um baixio de coqueirais, alguns morros cobertos por mato. Tinha chovido de noite e as folhas gotejavam como que lágrimas de alegria. O mar dava umas pinceladas de verde por trás das casas dos nativos; trepadeiras floridas se derramavam sobre as cercas de estacas. E o céu azul, azul, azul.

Passei por um trator que levava galhos de podas, depois por uma mercearia com vassouras coloridas à entrada, adiante uma mulher varria a frente da casa, outra esperava condução, um bebê ao colo. Eu cruzava com motos dos trabalhadores que pegavam o serviço às sete, aqui quase todo mundo tem moto. Então eu reconheci um deles: era o Novo, que tinha trabalhado na construção de nossa casa.

Novo trabalha como pedreiro: fundação, paredes, lajes, pisos, cerâmicas… Sabe montar um telhado, faz medidas, gabaritos, rebocos finos ou rudes, acabamentos. Sabe muito mais que o serviço de pedreiro; fez nosso muro de eucaliptos, perfeito. Fez tramelas, estante para livros, cama, banco… Se eu pergunto: Novo, você sabe cortar grama? Ele ri, diz que aprendeu quando estava na barriga da mãe. Tudo ele aprendeu na barriga da mãe. Um bom modo de explicar que aprendeu olhando e fazendo.

O Novo é também artista. Tem uma personalidade de artista, cheio de sensibilidades. Esculpe peixes na madeira e nos deu um de presente. Deu-nos também uma panelinha de pressão feita com lata de cerveja, lindinha. Faz para vender umas luminárias de tubos de PVC furados com desenhos de jardins ou beija-flores; monta casas de bonecas com palitos de picolé – diz que usou seis mil palitos numa delas; e fez uma pequena escultura com duas peças unidas por um parafuso, numa escrito o meu nome e na outra o nome do Theo. Quando giramos as peças, elas formam um coração, os nomes de juntam. Coisas singelas, feitas com inspiração e humor.

Conheço a esposa e os filhos do Novo, três adolescentes galalaus; a família é de estatura alta, deve ter sangue dos holandeses que viveram aqui no século 16; um sobrinho de Novo, louro e de olhos verdes, parece estar numa rua em Amsterdã. Sei um pouco dos problemas de Novo, sei um de seus sonhos: trabalhar por conta própria. E tudo isso me veio à cabeça, quando cruzei com ele na estradinha. A cada pessoa que passava e eu não conhecia, ficava imaginando quem poderia ser, sem saber nada delas, com a sensação de que tornamos as pessoas invisíveis. Na cidade grande, nada sei da multidão que caminha na calçada da praia, nem das pessoas que cruzam comigo nas ruas; e quanto mais pessoas, mais distância. Avistei o carro do marceneiro Ermeson, levando portas e janelas.

Cruzei depois com o Damião, levando para o trabalho na garupa da moto a sua Sulamita, e sorri interiormente. Voltei a olhar a paisagem, tudo estava mudado, o céu com nuvens, a cor do mar mais azul; agora eram crianças que esperavam o transporte escolar, em suas fardas, cabelos penteados, orgulhosas de terem um ônibus amarelo, merenda, e meu coração se encheu de ternura.

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