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Festas juninas: um pouco de história

Artigo do professor Jaime de Almeida.

Por Jaime de Almeida
Professor aposentado do Departamento de História da Universidade de Brasília. Trabalha em temas como: história latino-americana e caribenha, festas e comemorações, história da Colômbia.

Artigo publicado originalmente no portal da UnB (unb.br)


Nossas festas juninas inserem-se no longo processo de cristianização de ritos imemoriais que celebravam o solstício de verão na Europa e no Oriente Médio. No ano 325, pouco antes que o cristianismo se tornasse a religião imperial, o Concílio de Nicéia ajustou os calendários lunar, judaico, e o solar, romano. Como a memória da ressurreição do Cristo estava ancorada no calendário lunar, um bloco de festas móveis (Carnaval, Semana Santa, Pentecostes e Corpus Christi) acompanha o movimento pendular do domingo da Páscoa, que oscila entre duas datas fixas extremas – 22 de março a 25 de abril. Assim, a Páscoa foi inserida na estação da primavera enquanto o Natal e o São João cristianizavam os ritos tradicionais dos solstícios de inverno e verão do hemisfério norte.

Erguida uma basílica sobre o túmulo de São Pedro no Vaticano, local privilegiado do culto solar, o Natal cristão passou a concorrer desde o ano 354 com as celebrações do Sol Invicto e de Mitra nas cidades romanas. É dos anos 360 o batistério de São João Batista em Poitiers, talvez o mais antigo edifício cristão da Gália. Santo Ambrósio teria enviado de Milão para Rouen relíquias de São João Batista em 393. O bispo Perpetuus instituiu em Tours, na década de 460, a festa da natividade de São João Batista. Bento de Núrsia, fundador da ordem dos beneditinos, ergueu no Monte Cassino um oratório a São João Batista sobre as ruínas de um templo de Júpiter e foi ali sepultado. Gregório o Grande, primeiro papa beneditino, celebrou a paz entre lombardos e bizantinos no dia de São João, padroeiro dos lombardos, em 590. Na Ibéria, o rei visigodo Recesvinto dedicou uma ermida a São João numa estação termal do rio Pisuerga em 661. Um dos sermões de Santo Elói contra o paganismo mostra que o solstício de verão continuava sendo celebrado com danças alegres ao redor do fogo em meados do século VII.

A devoção ao santo ganhou maior importância a partir da Aquitânia. Segundo a lenda, o monge Félix, guiado por um sonho, traz de Alexandria para Angoulins o crânio de São João Batista em 817; Pepino da Aquitânia cria a abadia beneditina de Saint-Jean d’Angély e a relíquia atrai muitos peregrinos, mas a região é assolada pelos vikings e a maioria dos monges é massacrada. A relíquia é milagrosamente recuperada em 1016 e a abadia reconstruída torna-se ponto de passagem da peregrinação a Santiago de Compostela. O papa Urbano II a visitou em 1096 quando convocava a Primeira Cruzada. As ordens militares dos hospitalários e templários impulsionaram a devoção a São João Batista durante as cruzadas. (A famosa relíquia de Angély desapareceu durante as guerras de religião do século XVI).

Na Península Ibérica, mouros e cristãos organizavam luxuosos torneios equestres (origem das cavalhadas atuais) no solstício. Na Reconquista de 1492, os reis católicos Fernando e Isabel entraram solenemente em Granada no dia de São João e consagraram uma mesquita ao santo. Os restos mortais do casal foram depositados por Carlos V na capela real de São João Batista e São João Evangelista junto a muitas relíquias, entre as quais o braço direito e uma mecha dos cabelos de São João Batista. Além das disputas entre cristãos e mouriscos nas cavalhadas e touradas, os aquelarres das bruxas também eram típicos do São João ibérico.

São João era festejado com entusiasmo nas aldeias jesuíticas no Brasil, provavelmente porque as fogueiras e tochas acesas pelos missionários provocavam grande efeito sobre os indígenas. Embora a festa tenha absorvido elementos das culturas índias e, mais tarde, africanas, a hegemonia da tradição europeia e portuguesa é evidente. Os instrumentos de música, os hinos e os passos de dança eram ensinados por irmãos leigos das ordens religiosas, recrutados entre camponeses e artesãos na Europa. Assim, ritos imemoriais que persistiam nas festas quinhentistas europeias circularam na colônia como elementos normais da cultura cristã.

A festa coincidia com a época de colheita do milho e de preparo dos novos plantios; as fogueiras de São João dialogavam com as práticas rituais indígenas ligadas à coivara. A enorme escassez de mulheres brancas na colônia justificava grande tolerância diante das relações entre homens brancos e mulheres índias, negras e mestiças; daí a enorme popularidade adquirida pelos cultos prestados a entidades como São João, Santo Antônio e São Gonçalo que aproximavam os dois sexos e protegiam a maternidade.

As fogueiras de São João tinham ainda um papel fundamental no estreitamento das relações familiares por meio da instituição do compadrio que estreitava os laços entre vizinhos e entre diferentes grupos de status. Tal como no sacramento do batismo, os “compadres de fogueira” assumiam compromissos de ajuda em caso de ausência ou morte, de cooperação nos trabalhos da roça e, eventualmente, em assuntos de política.

A centralidade da relação entre as festas juninas e o casamento, a família e o parentesco se insinua num incidente emblemático pouco após a Proclamação da República. Em 28 de junho de 1893, O Apóstolo, jornal da diocese do Rio de Janeiro, afirmava que, enquanto as novas festas cívicas reduziam-se ao desfile militar e à iluminação dos edifícios públicos, as festas religiosas tradicionais vinham ganhando mais vigor. “São João há muito nunca foi tão festejado como agora”. É que, na véspera daqueles festejos, a Câmara dos Deputados decidira vetar a obrigatoriedade de precedência do casamento civil perante o casamento religioso, encerrando incontáveis processos decorrentes da separação entre a Igreja e o Estado. À noite, os sinos de todas as igrejas do Rio repicaram; fogos, balões, piano, charanga popular, o povo se esbaldara pela noite adentro erguendo vivas ao glorioso São João. “Era, pois, à sombra da Igreja, e pela porta da religião um brilhante renascimento das nossas quase perdidas alegrias nacionais”.

As festas juninas contemporâneas reforçam projetos de redefinição das identidades regionais dentro do já um tanto antigo “país do carnaval”. Expandem-se as igrejas evangélicas frente ao desafio de novas identidades culturais, étnicas e sexuais. Enquanto as crianças dançam quadrilha nas escolas, é interessante comparar os dois principais modelos atuais de festa junina. Tanto nos concorridos forródromos nordestinos e bumbódromos do Norte, como nas festas “country” das regiões de agronegócio, São João ostenta sua notável capacidade de afirmar/atualizar/instituir tradições.

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