Volta às aulas

"Parece claro que o reencontro precisa ser cativante!". Artigo de Flavia Lobão.

Por Flavia Lopes Lobão
Professora da Escola Sá Pereira e doutorando em Educação pela UFF

Para ensinar sempre é necessário o amor e o saber, porque quem não ama não quer, e quem não sabe, não pode. (Padre Antonio Vieira).

Essa experiência de volta às aulas, para mim, se repete há muitos anos e parece sempre inaugural no que diz respeito à realização de um sonho de escola, sua poetização e (re) encantamento. É nisso que penso/sinto em primeiro lugar: como alimentar este sonho? Novos vínculos de afeto com o grupo que nos espera estarão por ser construídos, assim como novos desafios com relação à pesquisa, ao conhecimento; isso quando se sabe que quase nada está pronto/dado, ou seja, que há um espaço grande para decisão coletiva do que será estudado, do que será posto na centralidade como desafio para grupo.

Parece claro que o reencontro precisa ser cativante! Certamente há uma complexidade aí que escapa aos limites deste texto, mas não é possível deixar de considerar que esse sonho é tecido tendo em vista uma série de condições objetivas e subjetivas, que vai dos aspectos mais miúdos, do cotidiano, aos macros.

Sendo assim, a cada ano, o momento volta às aulas parece atravessado por uma enormidade de desafios, mas que reforçam tal necessidade de (re) encantamento da escola: fazer sentido para as crianças/jovens sendo capaz, ao mesmo tempo, de produzir novos desafios intelectuais, estéticos, afetivos etc.

Ao considerar a complexidade de nossa realidade, a situação da Educação no Brasil, penso que não há como reiniciar um ano letivo sem pensar a questão do formação do leitor – da palavra e do mundo – na verdade, o “nó cego” que atravessa toda a formação escolar e acadêmica, com implicações na vida cidadã.

Um dia desses, lendo Ruy Duarte de Carvalho, encontrei-me com a seguinte ideia que sacoleja, especialmente, quem lida diariamente com o compromisso de educar:

quem é analfabeto nada lê, de fato, e também de fato pouco ou nada leem aqueles que se beneficiam de aprendizagens modernas mas evitam, recusam mesmo, porque antes do mais lhes intimida, toda a escrita que não lhes proponha uma sopa de letras liquidificada pelas tecnologias da midiatização…

Fico pensando nesse inusitado analfabetismo um pouco mais sutil. Vivemos num tempo em que parece não ter fim a quantidade de informação disponível, talvez nunca as pessoas tenham lido tanto, mas, paradoxalmente, parece que nunca leram tão pouco. Falo dessa experiência de leitura que arrebata e transforma. Essa leitura que interpela a vida parece já não ter mais espaço quando o desejo é estar, simplesmente, bem informado – sobre uma infinidade de coisas pulverizadas. De fato, pouco ou nada se lê quando não somos capazes de afirmar/reinventar um lugar de leitor diferente daquilo que já está previamente demarcado, visado. Qual tem sido a contribuição da escola para uma leitura atenta e bem cuidada, do mundo, de uma circunstância, ou ainda do outro? E, como iniciar um ano letivo, encontrar os estudantes, sem nos lembrar que estamos implicados nesta realidade?

Fico sempre na esperança de que algo seja realmente inaugurado nas escolas, e quem sabe deixaremos de falar em criar o hábito de leitura e passaremos a, pacientemente, cativar a leitura. Estaremos diante do desafio de transformação de práticas engessadas, e a primeira de todas as exigências para compreensão dos mecanismos e do funcionamento da linguagem é proporcionar a experiência de narrar e de ser ouvinte de narrativas. O professor será ensinante, mas também aprendiz, porque as compreensões serão sempre muitas e variadas, lançando os sujeitos envolvidos em novos processos de experimentação e de aprendizagem. Certamente que atuar nessa perspectiva exige uma compreensão de que a criança e o jovem também educam, não apenas são educados. Reencontrar com nossos estudantes exige esta disponibilidade: uma atitude amorosa de reconhecimento/respeito pela alteridade.

Infelizmente, a realidade ainda aponta para a escola do “Psiu, falem baixinho! A Rainha pode ouvir!” Assim, menino e menina perspicazes vão se entregando, entrando no jogo que a escola faz, cansados por suas inúmeras tentativas de serem vistos, ouvidos, tocados, amados. Logo entendem que precisam crescer rapidamente para serem reconhecidos como igual. Mesmo que isto signifique sacrificar sua felicidade real. Entretanto, aprenderam mais lições importantes: barganhar para receber atenção, cuidados, amor e crescer é ser alguém na vida. Se não se domesticarem poderão ser castigados ou abandonados, ficarem invisíveis, incompreendidos…e, quem sabe, até, transformarem-se em ninguém.

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