Sobre educação e audiovisual

Gilka Girardelo analisa os documentários que foram exibidos no seminário de educação da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis.

Por Gilka Girardello
Professora do Centro de Educação da UFSC

Este ano a programação voltada a educadores da Mostra de Cinema Infantil de Florianópolis teve uma intensidade especial – e olhem que a Mostra sempre deu muita atenção à educação. Qualquer pessoa que tenha estado no cinema do Centro Integrado de Cultura nos dois dias frios em que aconteceu o Seminário Educação e Audiovisual, 8 e 9 de julho, pode confirmar isso. Acho que essa intensidade teve muito a ver com os dois ótimos documentários de longa-metragem sobre Educação que foram exibidos. Os dois são filmes novos, que já chegaram anunciados pela propaganda boca-a-boca  e via internet entre educadores e cineastas.

O primeiro filme, A Educação Proibida, do jovem diretor argentino Germán Doin, é fruto da cultura participativa da internet, foi produzido por crowdfunding, está disponível na rede e já teve mais de 8 milhões de visualizações. Quarenta educadores de oito países da América Latina dão depoimentos criticando a educação tradicional, seu autoritarismo e conformismo, e defendendo uma educação mais humana e amorosa. Os depoimentos são entremeados por cenas de ficção em que jovens de uma escola tradicional protestam contra a educação entediante e repressora que recebem.

Os depoimentos são preciosos, e o filme é um material riquíssimo para animar debates, principalmente entre o pessoal ligado à Educação. E será que existe alguém que não tenha nada a ver com a Educação? Só por isso já teríamos de agradecer a German Doin pelos anos em que percorreu o continente de câmera a tiracolo, atrás de experiências educativas diferenciadas.

No debate com o diretor, no CIC, algumas pessoas da plateia questionaram o fato de o maior alvo das críticas no filme serem os professores – que o filme retrata muitas vezes como autoritários – sem dar tanta ênfase aos outros graves problemas que atingem as escolas. Também foi problematizada a predominância de depoimentos masculinos no filme, principalmente considerando que a maioria dos educadores são mulheres. Mas muita gente aplaudiu a escolha do tema, a variedade das linguagens, seu processo colaborativo de produção e distribuição, e a ênfase do filme na importância do amor no dia-a-dia das escolas. O filme rendeu um debate quente e oportuníssimo sobre o sentido da educação, atravessado por tensões éticas, estéticas e políticas, mostrando o poder de um bom filme para ajudar um coletivo a pensar.

No dia seguinte, foi a vez de o filme Sementes do Nosso Quintal comover a plateia. Depois que as luzes acenderam, no debate, muitas pessoas disseram que não queriam que o filme acabasse , para não terem que sair de dentro do seu encanto. Que encanto era esse? O da infância, certamente, mas também o do cinema.

Se o filme anterior apontava o que falta à educação, este celebrava uma experiência educativa feliz e inspiradora. A diretora paulista Fernanda Heinz Figueiredo, também trazida pela Mostra ao cinema do CIC, contou que passou quatro anos fazendo o filme no “quintal mágico” da instituição de educação infantil que ela própria frequentou quando criança – a veterana Te-Arte, de São Paulo.

Essa intimidade explica a absoluta naturalidade das crianças filmadas, como se a câmera fosse invisível, nos permitindo um acesso privilegiado às conversas e brincadeiras das crianças que passam suas manhãs em um espaço cheio de árvores, patos, passarinhos e lagartixas, entre os tambores rituais da cultura popular e concertos-surpresa de piano e clarinete.

Closes demorados e uma atenção paciente aos detalhes – aos olhos e às mãos das crianças, principalmente – nos ajudam a ver melhor o que elas estão pensando, fazendo e sentindo naquele lugar que é tão rico e ao mesmo tempo tão distante do consumismo. A câmera segue as crianças bem de pertinho em suas estripulias e trabalhos pelo quintal, fazendo com que de certo modo o fio narrativo das sequências seja construído por elas mesmas.

A sensibilidade da direção parece inspirada pela “pedagogia orgânica da simplicidade”, que, segundo a estudiosa Dulcília Buitoni, sintetiza a proposta educativa da escola, criada pela figura rara de Terezita Pagani.  A presença impressionante dessa mulher atravessa o filme do início ao fim, e faz com que Sementes do Nosso Quintal seja também uma homenagem a uma grande professora brasileira. Isso tem um papel importantíssimo, numa época em que tanto precisamos dar valor e visibilidade às referências admiráveis de educadores brasileiros.

Muita gente que trabalha com crianças vê todos os dias cenas inspiradoras como as que o filme mostra. Mas o que Fernanda Heinz fez é mostrá-las por meio de uma obra de arte, que assim nos toca e mobiliza ética e esteticamente, que assim nos ajuda a olhar de um jeito renovado e singular para as coisas à nossa volta.

Em resumo, Sementes do Nosso Quintal é um testemunho do valor do cinema – da arte do cinema – para nos ajudar a ver o que está na nossa frente. E não é por isso mesmo que defendemos a presença do cinema de qualidade na vida das crianças?

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