Greve, escola e educação

Leia o artigo da professora Denise Vilardo, coordenadora pedagógica do Colégioo Graham Bell. No texto, Denise avalia até que ponto a greve da categoria é oportuna.

 

 

 

Por Denise Vilardo
Professora da Rede Pública Municipal RJ, coordenadora Pedagógica do Colégio Graham Bell e colaboradora da Fundação Darcy Ribeiro.
Sem duvidar da legitimidade dos argumentos que levaram e levam os profissionais da educação a fazerem greves, creio que esta é uma estratégia que já não frutifica há tempos. Ou melhor, frutifica sempre para o lado negativo da questão. Quem perde é sempre o aluno.

As greves deram algum resultado, no âmbito da melhoria salarial, quando elas ainda pressionavam os governantes que, não sabendo lidar com a situação, ficavam assustados com o fato dos professores estarem se fortalecendo pela união.

Mas isso foi no final dos anos 70 e início dos 80. De lá para cá, não lembro de nenhuma greve que tenha tido resultados significativos no bolso dos professores. Ao contrário, elas têm servido para o governo economizar luz, gás, telefone e merenda.

Quanto às outras reivindicações que sempre vêm no bojo das campanhas, que sugerem melhorias em outros âmbitos e que envolvem a qualidade do trabalho, essas, então, nunca são alcançadas.

Para não ser radical de vez, lembro que, na Rede Municipal do Rio de Janeiro, ainda na década de 80, os professores reivindicaram horário de Centros de Estudos, dentro da carga horária regular, no que fomos atendidos. Mas, infelizmente, os próprios professores esqueceram que essa havia sido uma demanda própria e passaram a lidar com esse horário como sendo uma “obrigação” implantada pelos dirigentes e, salvo algumas honrosas iniciativas de poucas escolas, esse horário perdeu o sentido acadêmico e político.

É preciso reconhecer que a greve não funciona como forma de pressão. O fato de os alunos das classes populares ficarem sem aulas, o que significa ficarem sem aprendizagem formal, sem talvez a única possibilidade de contato com o mundo do conhecimento organizado, não sensibiliza a sociedade.

Digo isso com tristeza e constrangimento. É tempo de pensar em novas estratégias e que, a meu ver, começam dentro das salas de aulas e se expandem para as famílias dos alunos. Os alunos e suas famílias são os únicos que sentem falta da escola, mas não têm voz.

E os próprios educadores têm que valorizar o seu trabalho, para além dos R$ da hora aula, e se assenhorear da sua importância não apenas no estrito processo educativo, mas na importância da sua participação na formação da vida dos alunos, na sua ação política que deve reverberar em cada canto da sua sala de aula e ganhar força dentro e fora das escolas.

O que não podemos perder de vista é que, a cada aula não realizada, perdemos mais uma oportunidade de sermos relevantes para a vida de nossos alunos. Talvez isso não faça diferença para alguns professores, mas certamente faz para os alunos.

Me lembrei de uma crônica, do saudoso Fritz Utzeri, de 2002, e que transcrevo aqui (trecho adaptado de crônica de Fritz Utzeri, jornalista, para o Jornal do Brasil, em 19/05/02)

Celeste e a Geografia

 “(…) Da professora Isabel Penteado recebo carta: ‘Entre os vários artigos seus que leio, recorto e divulgo, está o ‘Quadro Negro’. Levei para o curso de Inglês onde trabalho. Apesar de lidarmos com a ‘nata da nata’, temos consciência do que rola por aí. Já ensinei em escola municipal e sei como é. Uma colega que ensina Português leu o seu artigo e trouxe uma cópia de uma redação. Segundo ela, o texto foi escrito por uma jovem incapaz de fazer uma prova de Geografia, porque desconhecia a matéria. No lugar da prova fez esse manifesto – desabafo – obra-prima como relato de nossa triste realidade social.’ Ei-lo:

 ‘Tentei resolver a prova, mas infelizmente após ter concluído o segundo grau no CIEP Mário de Andrade me caiu a ficha de que não faço parte da elite, sou apenas mais uma jovem ‘recém-diplomada’ pela rede pública de educação, como tantos milhares que ficaram reprovados neste exame. Realmente não tenho condições de passar por essa enorme barreira que me separa do sonho de ser médica, mas infelizmente não tenho dinheiro para pagar um cursinho, nem tive para bons colégios. Nem ferramentas para a batalha eu tive, pois após a falta de tempo e boa vontade dos professores, constatei também a falta de livros nas bibliotecas. Por que você não faz uma estatística para saber quantos estão na minha situação, morrendo de sede com uma cachoeira à frente?

O quanto eu sonhei com este dia do vestibular. A chance de um futuro melhor, de dar uma vida melhor a minha mãe, de dar conforto, de ter conforto. Aí eu me defrontei com um enorme muro de concreto, chamado ignorância, que me foi passado em 12 anos de ensino público, talvez não corresponda a seis do particular. Talvez eu tenha me deslumbrado com o fato de sempre ter sido chamada de boa aluna, mas não sabia que aquilo não era nem o trivial, por isso me aventurei e tirei 4,5 em Redação, um bom começo para quem conhecia parte da dificuldade. Agora estou triste, vejo o quanto me falta saber, o quanto está longe de mim o conhecimento.

Se chegou até aqui, obrigada pela atenção, talvez pela compreensão em saber que longe do seu mundo, do lado de fora da festa, existe mais alguém que almeja chegar, entrar e fazer parte do pequeno número de pessoas, das contáveis, pessoas que podem, que possuem condições reais de ter uma profissão.’

Celeste, esse é o nome da adolescente que desabafou nas folhas da prova de Geografia, é extremamente articulada e pelo menos não foi traída por seu professor de Português. Mas seu relato sem esperanças, a barreira que a impede de realizar o sonho de ser médica é um exemplo claro de como o Brasil joga fora vidas que ainda estão começando, mata talentos que, se tivessem oportunidades, contribuiriam para resolver os problemas que os políticos parecem desprezar. (…)”

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