Classe Hospitalar

Atenção à aprendizagem fora dos muros da escola. O dia a dia e o papel da mídia.

 

Por Maria Alice de Moura Ramos
Professora assistente da Universidade Federal  do  Estado  do  Rio de Janeiro (UniRio)
Doutoranda em Educação da Faculdade Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF)

Em março deste ano, como professora do Departamento de Fundamentos da Educação na área da Educação Especial, da Universidade Federal do Estado do Rio (UniRio), apresentei, como projeto de extensão, a implantação da Classe Hospitalar no Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, instituição universitária da UniRio. O projeto foi aprovado e o atendimento já vem sendo feito com objetivo de atender crianças e jovens internados na enfermaria pediátrica.

Classe Hospitalar não é nenhuma novidade para a cidade do Rio de Janeiro. O município é pioneiro e referência neste atendimento, data de 1950, quando foi criada a primeira classe, no Hospital Jesus, em Vila Isabel. Hoje, temos 11 espaços. No Brasil, oficialmente, há 141 hospitais que oferecem a oportunidade de crianças e jovens prosseguirem com seus estudos.  Mas o que é Classe Hospitalar? Como funciona este atendimento? Qual é a proposta? Este é o objetivo deste pequeno texto.

A educação dentro do contexto hospitalar é reconhecida pela área da saúde como um dos remédios que ajudam na recuperação da criança doente. Sabe-se que mesmo em ambiente hospitalar tanto a criança quanto o adolescente continuam em pleno processo de desenvolvimento, necessitando de uma educação comprometida não só com a sua formação acadêmica, mas também com sua inclusão social.

A escola na contemporaneidade tem o compromisso de estar onde a criança está. E quando aparece no espaço do hospital representa a normalidade dentro de um quadro de doença que se apresenta “como uma ruptura de um fluxo do cotidiano, uma ameaça súbita a um mundo tomado como suposto” (LIRA, 2005. p. 62). Se a criança não estivesse no hospital, onde ela estaria? Certamente na escola!

Embora esta modalidade de ensino esteja vinculada com a Política Nacional de Educação Especial, sua proposta pedagógica deve contemplar crianças e adolescentes de todas as características biopsicossociai, não limitando o atendimento apenas às crianças  com alguma deficiência. O objetivo da Classe Hospitalar é um atendimento pedagógico educacional que favoreça as crianças e os jovens hospitalizados a dar continuidade à construção do seu conhecimento, trabalhando articuladamente com a equipe hospitalar, com a família, e com a escola de origem do educando, de modo a promover o seu ingresso ou retorno à escola. A proposta da Classe Hospitalar é fazer com que a criança compreenda que a escola ali presente faz com que ela consiga continuar agente de sua constituição de conhecimentos e valores.

Temos consciência que a hospitalização representa um momento de fragilidade vivido tanto pela criança doente quanto por sua família. A presença do atendimento educacional traz para a criança a normalização do seu cotidiano, preenchendo de forma produtiva as horas vazias de sua hospitalização, resgatando, não só sua escolarização, mas também a manutenção da sua autoestima, da alegria de viver, de modo a encorajá-la a agir criativamente diante deste momento inesperado da sua doença.

As práticas educativas implementadas em espaços hospitalares não diferem, em seus objetivos básicos, das realizadas em qualquer escola. A diferença, se é que podemos destacar alguma, está nas ações pedagógicas selecionadas pelo professor, com base em seus saberes pedagógicos construídos ao longo de sua formação. Cabe a ele elaborar um planejamento não alienado ao contexto da criança, calcado no lúdico e, especialmente, voltado para a continuação do processo de aprendizagem já iniciado. Pensando as práticas educativas, é preciso logo de início compreender que cada dia de trabalho numa Classe Hospitalar é totalmente diferente do outro, devido ao movimento de internações, saídas para exames, visitas etc.

O planejamento deverá, por este motivo, estar sempre voltado para um grupo de alunos novos e com atividades que tenham início, meio e fim naquele dia. Se possível, o professor deverá ter um olhar investigativo, tentando descobrir alguma dificuldade apresentada pelo aluno que está atendendo, de modo a gerar uma orientação que possa facilitar a aprendizagem, em algum momento, não alcançada. Já no caso de internações recorrentes e/ou prolongadas, a atenção estará mais focada a um planejamento mais detalhado, preferencialmente em contato com a escola de origem do aluno, com vistas a proporcionar a continuidade da vida acadêmica do estudante.

Não podemos esquecer que as mídias também podem e devem estar presentes nas Classes Hospitalares como em qualquer escola. Quando a criança recebe o atendimento no leito, por não poder sair para o espaço específico da classe, esse atendimento pode ser feito com um notebook, tablet etc. As crianças atendidas podem entrar em contato com a sua escola e colegas através da internet. Entre 2003 e 2010, trabalhei na Classe Hospitalar Jesus que mantinha um convênio com a IBM, pelo qual recebia computadores, planejados para serem utilizados por crianças de 3 a 6 anos, com jogos educativos. As crianças adoravam.

Para a criança, o hospital é o lugar desconhecido onde não pode fazer nada do que gosta. Tem que ficar quieto o tempo todo, sem brincar, muitas vezes sem sair da cama. É o lugar da falta, onde sente saudades dos familiares, da casa, da escola, dos colegas, dos brinquedos e brincadeiras. A realidade vivenciada por uma criança dentro do espaço hospital é inesquecível para ela. O estado emocional é abalado tornando-a, na maioria das vezes, insegura. A escola no espaço hospitalar aparece para transformar o paciente/aluno em aluno/paciente, pois o objetivo é desafiar a criança cognitivamente.

Assim, a Classe Hospitalar passa a ser um lócus de ações e transformações educativas. Os próprios pais ficam, num primeiro momento, surpresos com o desempenho dos filhos, pois os julgavam incapazes de produzir qualquer coisa. No segundo momento, a experiência de sucesso dos filhos nas atividades escolares, leva-os a acreditar numa capacidade como a de qualquer outra criança. A partir dessa constatação, os pais passam a falar mais na volta à escola, ou até se animam em matriculá-lo, quando ainda não o fizeram. Compreendem que não há necessidade de interromper o vínculo da criança com a escola, por conta da doença, ou seja, não devem ficar a espera de uma recuperação total para a inserção da criança num espaço escolar.

O fato de a criança se mostrar capaz significa para os pais uma esperança no futuro, conseguem projetá-lo propagando a linguagem da saúde, na busca de saberes fundamentais para a construção do conhecimento, mesmo estando hospitalizados.

Temos que dar visibilidade às leis que garantem esse tipo de atendimento. O professor que conhece os direitos de seus alunos é sem dúvida um profissional mais envolvido e responsável com a sua prática educativa. Para tanto, é preciso formar profissionais da educação conscientes de que sua prática deve buscar estratégias para dar atenção à diversidade de público atendido fora dos muros da escola, melhor dizendo, é preciso (trans) formar a formação que se tem. O conhecimento desta modalidade de ensino dentro e fora dos espaços acadêmicos, bem como do direito assegurado por lei, é, certamente, um desafio para todos os envolvidos com educação.

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