O Brasil nas ruas

Diante de tantas manifestações, o que dizer para as crianças? Participe e envie o seu comentário.

O Brasil nas ruas é o tema do momento. As passeatas e manifestações em todo o país têm ocupado cada vez mais o espaço da mídia, bem como o dia a dia de todos os cidadãos. Algumas cenas já entraram para a história. Há quem diga que o país já não é o mesmo. Nas redes sociais, há inúmeras avaliações e reflexões. A opinião pública vai sendo construída e desconstruída a cada novo post, vídeo e foto. O debate já chegou também às escolas e, inclusive, às rodas de conversa de meninos e meninas. Em casa ou na escola, eles também querem saber o que está acontecendo. Querem entender e opinar. A revistapontocom abre aqui um espaço para escutar os leitores. Afinal: o que dizer para as crianças?

Para iniciar o debate, publicamos aqui a opinião da psicopedagoga Andrea Garcez, doutoranda em Educação pela PUC-Rio, e da professora Rita Ribes, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Leia e participe. Envie também o seu comentário.

Andréa Garcez, doutoranda em educação pela PUC-Rio  – Acho que devemos dizer que as pessoas estão se unindo para lutar por melhores condições de vida e um futuro melhor para o país. E que isso é muito importante. Uma parte (pequena, ainda bem) não entende que é possível fazer isso sem violência, sem quebrar tudo, colocar a vida das pessoas em risco. É preciso dizer que muitas vezes a polícia também não sabe como agir, porque uma das coisas pelas quais também temos que lutar é por uma polícia melhor. É bom esclarecer que muitas vezes a televisão e o jornal não mostram as coisas como realmente aconteceram. Devemos, portanto, sempre desconfiar e tentar ver o outro lado da história. Penso que as crianças podem e devem acompanhar o que está acontecendo porque é um momento histórico e muito bonito. Escrevendo aqui agora me lembrei do filme “A culpa é de Fidel”, da cena em que os pais levam as crianças para uma passeata para aprender cidadania.

Rita RIbes, professora da Uerj – Importante dizer às crianças que a história não começa quando elas nascem – nem quando nasceram seus pais e avós. E que o mundo em que elas nasceram foi tecido também pelas lutas e não-lutas de seus pais e avós. Importante dizer que se deve brigar com unhas e dentes e choros por um mundo melhor, mas que “um mundo melhor” não significa a mesma coisa para todas as pessoas. Um mundo melhor para as crianças que já tem uma casa cheia de brinquedos pode ser ter ainda muito mais casas e brinquedos. Um mundo melhor para a criança que vive na rua pode ser passar a ter uma casa, um brinquedo, um olhar que a perceba no mundo. São dois desejos de melhorar o mundo que não necessariamente se afetam. Mais que dizer às crianças, é importante SER COM as crianças: construir práticas de justiça social que se imponham à indiferença, ao preconceito e à arrogância. Fora isso, não há nada que esteja acontecendo no mundo que não afete as crianças sobre o que as crianças não tenham algo a dizer (Walter Benjamin falou isso há um século!!!). Talvez seja mais o caso de ouvi-las, de despirmos de nossa pedagógica e colonialista arrogância de achar que somos nós, adultos, “quem” sempre tem algo a dizer e que “tem que” dizer.

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