Neurociência em favor das crianças

Miguel Nicolelis, professor e neurocientista, apresenta projeto Walk Again em palestra na Universidade de Brasília (UnB).

O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis quer colocar a ciência no centro do gramado do estádio que vai sediar a abertura da Copa do Mundo de 2014. A cena imaginada é a seguinte: a seleção brasileira, que faz o primeiro jogo do torneio, é conduzida até a linha de saída de bola por duas crianças brasileiras. Portadores de deficiência física, os pequenos entrarão caminhando graças a um experimento inovador. Acoplado às pernas, um equipamento chamado pelo neurocientista de exoesqueleto permitirá que as crianças se movimentem com a força do pensamento. Elas dão o pontapé inicial da partida. O invento pode realizar o maior sonho do neurocientista: “fazer alguém andar”.

Apresentada ao governo brasileiro e aos organizadores da Copa de 2014 pelo neurocientista, a proposta está em análise. O projeto científico, chamado Walk Again, foi detalhado na quinta-feira, 25 de agosto, na Universidade de Brasília (UnB). Miguel Nicolelis lidera equipe de mais de 100 pesquisadores de três continentes envolvidos no experimento, inclusive do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, fundado por ele. Dezenove dos cientistas acompanharam o neurocientista na visita à UnB. A apresentação do projeto aconteceu durante lançamento do livro do pesquisador, Muito além do nosso eu

O equipamento reproduz os movimentos a partir de microssensores instalados no cérebro do paciente por meio de uma cirurgia. Os microssensores levam até o exoesqueleto sinais que tiveram sua passagem interrompida em geral por um dano físico. Para isso, o cérebro precisa ser retreinado por meio de estímulos que provoquem as reações necessárias para desencadear os movimentos. “Quando há uma lesão na medula cerebral, por exemplo, o cérebro continua a imaginar os movimentos, só que os sinais não conseguem chegar até a região do corpo que o pensamento deseja mover”, explica Nicolelis.

O experimento foi testado mais de uma vez. Nicolelis aponta que o teste mais comemorado foi realizado simultaneamente nos Estados Unidos e no Japão. Da Duke University, na Carolina do Norte, a macaca Aurora acionou um robô, o CB1, em um laboratório em Tóquio, a partir de estímulos cerebrais.

A equipe de Nicolelis chegou aos resultados a partir da descoberta de que o corpo se apropria de objetos e cria novos mecanismos de controle. “Se você esconder parte do braço de alguém e colocar sobre a parte escondida um braço de manequim, depois de algum tempo a pessoa vai realizar movimentos como se o braço de manequim fosse o seu de verdade”, explica o neurocientista. “O maior jogador de fubetol, Pelé, foi o maior porque a bola foi incorporada como uma parte dele”, analisa. 

Os resultados dos experimentos do neurocientista e sua equipe contrapõem teoria dominante no século XIX de que o cérebro funciona por áreas especializadas. “O cérebro é plástico, funciona como uma grande democracia em um mecanismo chamado distributivo. É a única orquestra que produz uma música que modifica os instrumentos que produzem a própria música”, define.

Nicolelis lembra que até 20 anos atrás os cientistas não tinham ideia do que era uma tempestade cerebral. “A primeira vez que conseguimos documentar isso foi há 10 anos e eram apenas 100 neurônios disparando informações simultaneamente. Hoje, já conseguimos documentar tempestades com mais de 1 mil neurônios agindo ao mesmo tempo”, explica. 

Professor da Duke University, nos Estados Unidos, e considerado um dos 20 cientistas mais influentes do mundo, Nicolelis foi aplaudido de pé pelos quase 200 professores e alunos que lotaram o auditório da Reitoria.

Laio Vitor, Matheus Naves, Alexandre Fuckner, Yuri Almeida e Deyne Morais, disputaram entre si quem ficaria com o livro de Nicolelis, que compraram depois de fazer uma “vaquinha” para garantir os R$ 35 necessários. O autógrafo foi coletivo. “Nicolelis abriu nossa visão, nos fez pensar em nosso papel como estudantes e profissionais – quem sabe cientistas”, contou Deyne, do 3º semestre do curso.

Como eles, pelo menos outras 80 pessoas compraram o livro e aguardaram pelo autógrafo na longa fila que se estendeu por todo o auditório. Os estudos do neurocientista abrem novas frentes de tratamento para os males de Parkinson e Alzheimer e para a recuperação do movimento em pessoas que sofreram acidentes.

Fonte – Secretaria de Comunicação Social da UnB.

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