“É preciso achar um equilíbrio entre avaliação e política pedagógica”

Ana Maria Monteiro, diretora da Faculdade de Educação da UFRJ, analisa a política pública educacional do Rio.

Educação: o que eu quero para minha cidade? Este é o slogan da campanha da revistapontocom. Conheça a proposta e participe. Abaixo, você confere a entrevista com a diretora da Faculdade de Educação da UFRJ, professora Ana Maria Monteiro.

As entrevistas aqui publicadas não traduzem a opinião da revistapontocom. Sua publicação obedece ao propósito de promover o debate da política pública municipal de educação, no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro, e de refletir as diversas tendências de pensamento. O espaço está aberto a todos os interessados em se manifestar.

Por Marcus Tavares

“É preciso achar um equilíbrio entre avaliação e política pedagógica. A minha critica é que a atual política educacional do Rio aposta e investe na dependência do professor em vez de investir na sua autonomia e formação. É preciso pensar em gestão, sim, mas numa gestão pedagógica. Vamos ver o que vai acontecer nas próximas eleições”. A afirmação é de Ana Maria Monteiro, atual diretora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cuja trajetória profissional é marcada como professora nos diferentes níveis da Educação Básica e Superior e na área de formação de professores.

Em entrevista à revistapontocom, na sede da Faculdade, Ana Maria Monteiro faz uma análise dos desafios da política pública educacional do Rio de Janeiro e afirma que a atual gestão vem exercendo um sistema de pressão em cima do professor, que, em função de alcançar metas, tem se dedicado a somente ensinar conteúdos que cairão nas avaliações, como o IDEB.

“E o que é mais grave: a secretaria tem produzido apostilas, uma espécie de aula pronta, com os tais conteúdos, que viraram uma espécie de bengala para alguns docentes. Antigamente, havia uma crítica de o professor ser dependente do livro didático. Será que estamos criando o professor-apostila-depentende?”, questiona.

Acompanhe:

revistapontocom – Como a senhora avalia a história da política educacional do município do Rio de Janeiro?
Ana Maria Monteiro – Da década de 80 para cá, houve avanços, sem dúvida. Nos anos 80, as condições de infraestrutura das escolas eram péssimas, muito improvisadas inclusive. Além disso, as escolas funcionavam em três turnos, havia um desgaste grande das instalações. Vivíamos também uma época de mudanças, com novas discussões sobre alfabetização, com os estudos de Emília Ferreiro, e com relação à implementação do horário integral no Ensino Fundamental, com o surgimento da proposta dos Cieps, que trazia uma nova concepção de currículo e de aprendizagem. Avaliando hoje, acho que as condições de infraestrutura das escolas melhoram em parte. O currículo foi sendo reelaborado. Mas a demanda por uma escola em horário integral não foi para frente, o que deveria ter acontecido.

revistapontocom – A implementação do horário integral é, portanto, ainda um dos desafios da educação do município do Rio?
Ana Maria Monteiro – É uma demanda cada vez mais evidente. Mas se somam outros. Por exemplo, a expansão da Educação Infantil. É preciso mais espaços, vagas e profissionais qualificados. Há um número enorme de profissionais que trabalha na educação infantil e que ainda não tem uma capacitação condizente. Isso sem falar, é claro, na remuneração do magistério. O que é pago hoje aos professores acaba induzindo-os a terem três, quatro jornadas, o que vai tornando negativo o trabalho. É um efeito negativo radical na qualidade de vida. O professor não tem tempo de elaborar, preparar as aulas, de estudar. Acaba adoecendo, fica exaurido. Como é que vamos qualificar a educação deste jeito? Uma alternativa seria aumentar a carga horária do professor? Sim, mas respeitando a qualidade de vida e remunerando o profissional para que ele possa se dedicar da melhor forma ao seu trabalho.

revistapontocom – Por que esses desafios de ontem e de hoje não são alcançados?
Ana Maria Monteiro – É uma boa pergunta. Acho que é uma questão de recursos e mais ainda: de prioridade. Ainda se tem uma visão preconceituosa e discriminatória de que a escola pública é lugar de gente menos favorecida. E como quem está no poder coloca o seu filho em escola particular, nada se faz pela escola pública. Também acho que os políticos não recebem da sociedade uma reivindicação clara e contundente pela educação. A opinião pública informada, que tem condições de agir, também está com seu filho na escola privada, não é, portanto, afetada pela política pública educacional. A grande parte da população que faz uso da rede pública não está organizada suficiente para agir, pressionar. Houve mudanças, sim, mas até que ponto a educação é um valor para a sociedade? Há uma questão cultural. Soma-se a isto o fenômeno do zigue-zague administrativo. Cada governo quer colocar seu projeto. Quando assume o cargo, o prefeito/secretário de educação apaga tudo e começa de novo, o que desmotiva os professores. Às vezes isso acontece mesmo quando o sucessor é do mesmo partido do que aquele que deixou o cargo.

revistapontocom – Isso aconteceu na trajetória da secretaria municipal de educação do Rio?
Ana Maria Monteiro – Nos últimos 20 anos, tivemos, entre 1993 e 2009, uma certa continuidade na proposta educacional, que foi interrompida com a posse da atual secretária de educação, Claudia Costin. Na verdade, desde o final dos anos 80, havia um movimento de se investir na formação do professor, em proporcionar meios para que este profissional se qualificasse e se tornasse mais autônomo em sala de aula. A partir de 2009, houve uma mudança neste sentido. Verificamos uma política não mais centrada na formação do professor, mas numa política de rendimento, mediada por avaliações.

revistapontocom – Mas não é preciso avaliar o sistema de ensino?
Ana Maria Monteiro – A avaliação é muito importante. É preciso, sim, avaliar o sistema. Mas o que se observa na atual gestão da secretaria municipal de educação é um sistema de pressão em cima do professor, que, em função de alcançar metas, tem se dedicado a somente ensinar conteúdos que cairão nas avaliações, como o IDEB. E o que é mais grave: a secretaria tem produzido apostilas, uma espécie de aula pronta, com os tais conteúdos, que viraram uma espécie de bengala para alguns docentes. No discurso da secretaria municipal de educação, as apostilas são uma base para os professores. Mas, na prática, tem se tornado uma forma de treinar os alunos para as provas, o que desqualifica a figura do professor, no sentido de que ele não precisa mais preparar suas aulas. Tudo está na apostila. Antigamente, havia uma crítica de o professor ser dependente do livro didático. Será que estamos criando o professor-apostila-depentende? Além disso, observamos uma duplicação da verba pública para o mesmo fim. Se já existem os recursos do FNDE para a produção de livro didático, qual seria o sentido da secretaria produzir as apostilas que trazem, teoricamente, os mesmos conteúdos?

revistapontocom – A senhora afirma que houve uma ruptura no processo de investimento na formação do professor. Como e por que isso aconteceu?
Ana Maria Monteiro – Em parte isso aconteceu em decorrência de experiências que foram feitas, nas gestões anteriores, com a proposta de avaliação continuada, que acabou recebendo o nome de aprovação automática. A proposta de avaliação continuada, o sistema de ciclos, na prática, é muito interessante, pois é consistente e não expulsa a criança da escola, há um comprometimento e um acompanhamento de cada criança muito grande. Mas essa proposta não foi bem implementada, os professores não receberam apoio e não foram orientados na condução do projeto. Isso tudo, associado a turmas grandes e a desvalorização do magistério, deu origem a aprovação automática, fato que abriu espaço para a atual gestão. Abriu espaço para uma política centrada, portanto, na avaliação. Fomos de um extremo ao outro. Do oito ao oitenta. É preciso achar um equilíbrio entre avaliação e política pedagógica. A minha critica é que a atual política aposta e investe na dependência do professor em vez de investir na sua autonomia e formação. É preciso pensar em gestão, sim, mas numa gestão pedagógica. Sob o ponto de vista pedagógico, houve um retrocesso na cidade do Rio. Vamos ver o que vai acontecer nas próximas eleições.

revistapontocom – Neste sentido, como a população deveria avaliar as plataformas de educação dos candidatos à prefeitura do Rio?
Ana Maria Monteiro – Até nos discursos, o tempo destinado à educação é mínimo e sempre com palavras chaves. É preciso cobrar medidas concretas. Perguntar diretamente aos candidatos o que eles pretendem fazer para o seu bairro, para a escola de seu filho. Serão contratados novos professores? O horário escolar será ampliado?

revistapontocom – Qual deve ser o perfil do próximo secretário de educação do município do Rio de Janeiro?
Ana Maria Monteiro – Tem que ser uma pessoa da área da educação. A tendência é colocar gestores. Acho que a questão da gestão é importante. Mas esse gestor não pode ver apenas o lado administrativo e fiscal. Aposto numa pessoa da área de educação, mas com a visão da gestão pedagógica, que entenda as especificidades de um contexto educacional, que envolva professor, aluno, ensino e contexto cultural. Não resta dúvida que estamos diante de uma rede de escolas de muita complexidade e que, inclusive, viveu e vive uma crise de violência bem dramática. Não é um perfil simples de ser encontrado.

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